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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

LIVRO DO UNIVERSO: CAPÍTULO 02

Capítulo 02 - Resumo


Este capítulo atenta-se para as invenções do cientista e matemático Arquimedes, conhecidas como "Máquinas simples"; e ainda a história dessa personalidade que viveu no período antigo.









LIVRO DO UNIVERSO: CAPÍTULO 01

Capítulo 01 - Resumo


O primeiro capítulo foca exclusivamente  na figura de Galileu Galilei, cientista do período Renascentista, e quais suas descobertas sobre o espaço utilizando um telescópio.












 



LIVRO DO UNIVERSO: INTRODUÇÃO

Introdução: Do Futuro ao Passado


          Esta pequena caminhada no percurso histórico da humanidade destaca as relações entre arte e ciência num conteúdo específico do acúmulo de conhecimento acerca dos fenômenos astronômicos e como de forma direta ou indireta isso foi e vem impactando nas relações coletivas entre indivíduos e nas relações que o homem cria com a natureza.
          Demonstra ainda os resultados deste acúmulo de informações sobre o espaço no que gera o gênero literário da Ficção Científica. Esse ramo da literatura contempla de maneira imaginária as possibilidades inerentes da evolução humana no descobrimento e arquivamento de informações astronômicas utilizando de modo engenhoso, satisfatório e complexo as relações entre arte e ciência, entre o teórico-científico e o visual-artístico.
          Finaliza com uma apresentação dos estudos sobre técnicas e dispositivos diversos que simulam a visão do olho humano, criando imagens em 3D. E de que forma estes estudos foram inseridos na indústria do entretenimento, permitindo uma maior imersão e interação.





























domingo, 12 de fevereiro de 2017

TADUS: Capítulo 03


O terceiro capítulo de Tadus apresenta-se como uma crítica a divisão fixa apresentada nos outros dois capítulos sobre a organização social e a produção humana atual.  Faz isso justamente retornando para o mundo antes dessa forma de organização, trata-se de um movimento que busca explicitar a não naturalidade da condição humana, que procura desmistificar o capital como meio universal de se estabelecer  relações de trabalho ou de qualquer outra ordem social entre os humanos. Se os dois capítulos anteriores falam sobre o presente, as questões humanas atuais, o Capítulo 03, ao retornar para o passado respondendo como e porque o presente se constitui deste modo específico, pretende apresentar uma perspectiva para o futuro da humanidade.

O conceito e execução da obra são de autoria dos acadêmicos Lucas Men Benatti, Odonias Souza de Santos Junior e Rafael Carvalho de Almeida.


Era uma vez um dia. Era uma vez um... Sim, um dia. Ele veio. Ele chegou como quem não queria. Chegou. Sim ele chegou! E sorriu. Divertia-se as minhas costas e eu que nada mais podia fazer. Eu que me encontrava encarcerado. Era uma vez um dia. Um dia em que o céu amanheceu negro. Pesadas nuvens de gases mortíferos. De gases cósmicos. De gases fétidos e radiativos. Brilhavam na negritude dos mortos e por sobre os vivos. E despejava. Chorava. Corria como um rio tuas lágrimas ácidas de fogo e fel por sobre as cabeças raspadas dos homens na terra. Era uma vez o dia que não se levantou. Não se levantou. Negava-se a obedece-lo. Ingênuo como eu, acreditava poder detê-lo. Não, não podia e foi domado. Foi tomado. Foi subtraído. Transformado. Era uma vez a morte fria e vazia que contemplava o animal marcado pelo azul e pelo vermelho. Apenas aguardava teu despertar. Apenas imaginava pobre coitada. Apenas imaginava. E a morte sorria. Sorria satisfeita com seus novos dentes. Sorria satisfeita com seu novo corpo. Ingênua. Ingênuo como eu fui e como o céu foi. Não tardou ele a subjugá-la e aprisiona-la nos confins da realidade sem real.
Era uma vez um animal magro. Viam-se teus ossos por sobre a pelagem falha. Era uma vez um animal que usurpou-me o manto. Iraram-se os deuses sem poder toca-lo. Iraram-se os anjos sem poder toca-lo. Iraram-se os monstros do bosque sem poder toca-lo. Não tinham mais poderes. Ingênuos ele os matara. Não mais existiam. Era uma vez... E então o animal sonhou! Sonhou que o beijava. Beijou-os. Não esperou que o dia nascesse. Criou tua própria luz, teu próprio dia, teu próprio Sol. Contemplou-os. Destruiu todas as amarras do passado. Secou todas as raízes e em sete dias tudo estava remodelado. Criara a perfeição. Criara a sua perfeição. E eu apenas observava... Restara a mim apenas a impotência do observador.


Devo-lhes dizer que quando o Universo desfazia-se em mil a brilhar... Quando caminhava pelo espaço, entre planetas, entre astros, entre cometas, entre estrelas e por entre todo o cosmo... Havia um viajante... Alguns diziam que era apenas um louco vagabundo... Outros um sábio que perdera-se de teu reino. Com tua lábia encantava a todos. Dobrava-os com teus versos, aconselhava-os, reconfortava lhes... Tuas palavras não permitiam que sentissem dor, que sofressem enfermidades, que delirassem... Que odiassem... Mesmo os homens que como rochas não sentiam... Não tocavam... Não amavam... Ouvia-o. Quando abria tua boca, todos calavam-se para ouvir o que dizia. Quando escrevia todos paravam para ler. Porém, o Viajante sonhava com o mundo dos humanos. O mundo dominado pelo homem. Sonhava com o calor das mãos humanas, o ardor dos corpos...
Um dia partiu e uma vez entre os humanos, o céu era negro e raios em tempestades o atingiam e o fazia em chamas. As mãos e os corpos humanos eram frios e profanadores. O Sol não mais existia, estava encoberto. Nunca viu o Sol e morrera velho, doente sem nunca saber como ele era. Diziam muito... Diziam e não cansavam de dizer... Verdades? Mentiras? O tempo nunca permitiria alcançar a realidade... Havia brilho! Havia calor! Mas eram artificiais. Brilhavam sem luz. Eram quentes sem calor. O Viajante não mais poderia regressar a teu reino! Quando falava ninguém mais ouvia. Quando escrevia ninguém mais lia. Não sabiam ouvir. Não sabiam ler. Não queriam ouvir. Não queriam ler. Não se importavam com o que dizia. Não se importavam com o que escrevia... Sofreu, padeceu, envelheceu sem poder fazer... Sem poder nada... Sem poder. Era apenas um Viajante. Era apenas um vagabundo miserável. Marginal. Acomodado. Tinham repulsas por ele... Temiam-no.
Deitou-se só sobre a calçada. Não havia terra. Não havia grama ou flores... Existiam, mais eram falsas. Contemplou o letreiro anunciando um motel barato. Fechou os olhos... Deixou que suas pálpebras lentamente descansassem... Sentiu como era boa a sensação... Trancou teus ouvidos... Não queria ouvir mais nada... Tudo silenciou-se... Escureceu...


Havia há muito que o homem domara as Máquinas. Haviam há muito criado uma nova era... Não contavam-se mais os dias. Não contavam-se mais as noites. Dia e Noite não mais existiam... Não adormeciam. Não descansavam. Eram incansáveis. E assim deveria ser. Se lhe incomoda-se a Luz, tratava de apaga-la. Se lhe incomoda-se a escuridão, tratava de dissipa-la.
O tempo. Os minutos... Segundos que voavam sem parar... Sem um destino concreto. Eles apenas voavam, pois gostavam de voar... Voavam e sentiam a brisa acolhedora sem importar-se com absolutamente nada... Voavam os segundos diante da morte... Voavam os segundos diante da vida... Voavam os segundos diante dos choros... E desapareciam diante dos sorrisos...
Nome? Nome. Qual era mesmo? Os homens por um tempo chamavam-me de Governador... E não podiam lutar contra.  Não podiam tocar. Não podiam atingi-lo... É verdade que sempre tentaram engana-lo... É verdade que sempre atentaram contra ele... Mas não podiam toca-lo. Nada poderia toca-lo, mas tudo sempre se torna velho. Defasado. Mentiras. Verdades. Verdades eram mentiras e mentiras verdades... E assim até o infinito. Sim. Esta sim é a minha morada. Sem fim. Sem começo. Um eterno constante. Um eterno. Apenas eterno.
Voei... Senti a brisa acolhedora sem importar-me com absolutamente nada... Retornei a passados inexistentes. Deitei-me. Repousei-me sobre as águas... E adormeci. Sonhei.
Era uma grande casa de velhas madeiras. Viam-se as almas da guerra sobre teus entalhes. Sobre tua pintura. Sobre as tabuas e o piso de cerâmica antigo. Azul? Não sei. Talvez fosse verde. Havia muito verde lá fora. Eram enormes. Eram enormes as árvores e cobriam grande parte de tudo. De tudo ou talvez de uma parte do todo. Havia uma varanda ampla. Uma bela varanda com tapetes de linha. Não eram coloridos. Não gostavam de cor. Vermelho. Talvez o céu estivesse avermelhado com o crepúsculo daquela tarde. O vento era sussurrante. E como sussurrava enfurecido. Odiava-o. Chocava-se contra a madeira do casarão e faziam as almas gemerem. E as almas se inquietavam entalhadas na madeira.


A velha avó estava sentada em sua poltrona. O avô apenas acompanhava a movimentação, entalhado igualmente na madeira. Partira ainda no período da guerra e não vira os filhos crescerem e os netos nascerem.  Lá fora, na varanda, o pequeno garoto brincava. Recebera o mesmo nome do avô. Não gostava. Fingia que sim para agrada-los. Ele divertia-se brincando com alguns carrinhos... estava sozinho e os ventos o apavoravam. Faziam-no tremer. Os ventos chocavam-se contra as árvores e sussurravam o medo e a morte... Podia ouvir a respiração desregular da avó. Não gostava do ronco da avó. Assustava-o. Não queria ser velho. Não queria ser velho... Os ventos gritavam de dor, a avó roncava em sono de morte, os pais sussurravam coisas incompreensíveis e os cachorros ladravam e rosnavam ferozes...
Então ele avistou um grande pássaro de assas negras, ele grasnou e voou... O menino o seguiu para mais adentro das árvores, que condessavam-se cada vez mais... Densas arvores. Perversas árvores diabólicas. Riam do pobre enquanto corria entre teus troncos. Rasgava-lhe a carne por prazer apenas porque gostavam de vê-lo sofrer... Ele estava perdido em um labirinto selvagem... O vento perseguia lhe, dizendo coisas estranhas em teu ouvido... E a ave. Aquela ave de plumas negras. Aquela ave de mal agouro. Que flutuava sobre sua cabeça. Que abriu tuas assas e estendeu tuas penas sobre a realidade. Ela estava além do sonho. Era de uma outra realidade. Uma realidade que existia e que não existia... Ele cambaleava. Agarrava-se a esperança e tomava em si a coragem e a medida que avançava, seguindo o grande pássaro negro, mais nítidas tornavam-se as vozes de teus pais que agora mais pareciam gritos...
Caiu. Sangrou. Queimou. Sentiu a dor. Olhou para o céu... Oh! Escarlate evocado pelas luzes divinas dos santos. Escarlate céu que queima. Que arde e que queima. Escarlate de sangue e de desejo. Nuvens de fogo em céu de lava. Era vulcão. Era calor. Contemplou. Admirou. Teus olhos avermelhados que refletiam a maldade. Teu corpo marcado pelo vermelho. Tomou-o. Embebedou-se. Tragou tudo de uma vez. Engoliu. Oh profundezas infernais terra mãe das desgraças e das bestas que alimentam os pobres tolos com teu pão de cevada amarga. Pão de trigo despótico...
Fechou os olhos. Deixou que a escuridão o inunda-se. Deixou que nada mais existisse a não ser o nada... Sorriu feliz com o nada.



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TADUS: Capítulo 02


O Mundo Superior, explorado em algumas nuances no Capítulo 02, apresenta a máxima burguesa de consumo, “progresso”e avanços tecnológicos. Os humanos da Superfície não precisam trabalhar, não precisam produzir e por isso seu tempo de vida é gasto com o prazer, com a satisfação de seus desejos. O Capítulo 02 expõe as frígidas relações líquidas pós-modernas, o vício da experiência, a efemeridade dos fenômenos, o descarte, a ausência de laços permanentes.  Também são exploradas as tenções, as posições de poder entre sujeitos e classes e seus movimentos de resistência. Declara sobre a mídia como aparato de controle do Estado, manipuladora de informações assim como, crítica as ideologias e governos autoritários e de repressão.

O conceito e execução da obra são de autoria dos acadêmicos Lucas Men Benatti, Odonias Souza de Santos Junior e Rafael Carvalho de Almeida.


CAPITAL, 20 PM

Enquanto assistia a tevê ouvi de sua boca que estava apaixonado por mim. Aquelas palavras soaram estranhas aos meus ouvidos. Reparei no buço que salpicava sua pele acima da boca. Era um demente. Apenas acenei com a cabeça, mas qualquer coisa naquele quarto era mais interessante que ele. Eu o olhava fixamente, mas era o meu reflexo que admirava em seus olhos inebriados pelas drogas. Era para mim mesma que acenava a cabeça. Deixei que ele tivesse seu prazer, que entrasse em mim. Sabia que era apenas o começo do mais amargo gozo jovial da iniciação. E minha buceta o engolia, não dava a mínima para o que ele fazia, fiquei parada assistindo o jornal.
- Um senhor de 50 anos foi repreendido na noite de ontem por um integrante de alto escalão dos Servos. O homem cuja identidade não foi revelada pela organização, foi torturado, morto e seus restos mortais jogados na Avenida 72.  Ele teria sido executado, segundo nota oficial dos Servos, por suposto envolvimento com o grupo extremista do terrorista Balzare, conhecido internacionalmente por difamar e atentar contra o Governo, distribuindo ilegalmente exemplares de um livro, cujo titulo impronunciável, dizia trazer a verdade aos homens. Balzare também é conhecido por incitar atos de violência na população e pelos já conhecidos ataques a prédios e órgãos públicos de defesa aos cidadãos. Com a palavra o Servo que liderou a operação. Boa noite sargento Maltês, o senhor poderia nos fornecer mais informações a despeito deste caso?
Senti sua respiração mais ofegante e o jato quente dentro de mim. Já havia acabado. Parecia uma massa amorfa encima de mim. Perguntei se havia gostado, mas não obtive nenhuma resposta, o idiota não conseguia falar. Sorri para mim mesma.
– Boa noite Cristine. Bem, eu gostaria de aproveitar o momento para tranquilizar toda a população que está nos assistindo e dizer que a situação já está sob controle. A operação fez parte das investigações que já vinham ocorrendo a algum tempo e que buscam erradicar o terrorismo, num esforço conjunto entre as administrações do Governo. Esse senhor, que preferimos não divulgar o nome, por temermos o comprometimento em nossas investigações, já estava sendo observado a algum tempo e a ação ocorreu como um ato preventivo. Como vocês podem ver nas imagens, a tortura foi empregada de forma bem direta e concisa, sem represálias. Durante a operação também apreendemos aparelhos de comunicação, que provavelmente estavam sendo utilizados para interlocução entre os membros da Tadus. Gostaria de ressaltar, enquanto representante do Governo, que tudo está sobre controle e estamos trabalhando para manter a população segura...


Empurrei seu corpo flácido de cima de mim e me levantei. Precisava ir e precisava do meu dinheiro. Peguei rapidamente minhas roupas no chão e me vesti. Fazia frio lá fora. Nevava no deserto.
- Anda cara levanta! Preciso ir embora, onde está meu dinheiro?
            Ele se contorceu na cama para me encarar. Não me atentei a sua aparência. Aquilo não me importava.
            - Mas já precisa ir? Fica mais um pouco... Foi tão gostoso brincar com você – Ele balbuciava, as palavras saiam enroladas de sua boca. Não sabia se era efeito das drogas ou do sexo. Quem sabe de ambas as coisas.
            - Está na minha hora... Se quiser volto outro dia, a gente combina. Onde está seu smart? Transfere o dinheiro pra mim...
            Pegou seu aparelho do chão, deu alguns toques na tela para executar o pagamento.
            - Feito. – Disse ele voltando-se a deitar. Olhei meu smart, a notificação do pagamento chegou na hora. Tinha mais 200 moedas no meu bolso agora. Não precisa, mas gostava do que fazia. Olhei para a tela grande da tevê pela ultima vez, tinha sido minha melhor companheira nessas duas ultimas horas trancada com esse adolescente. A imagem do Governador estava em destaque, belo, discursava com sua voz doce e potente.
– Estamos trabalhando para que toda a população de bem não sofra na mão de uma minoria rebelde que planta o caos e a desordem em nosso mundo. As investigações seguem e a luta contra os terroristas também. Depois da morte desse possível integrante do grupo terrorista de Balzare, reforçamos a nossa guarda de Servos em toda a Capital, e estamos implantando unidades de monitoramento em todos os nossos domínios. Uma precaução caso haja alguma tentativa de retaliação por integrantes do grupo...
Saí daquele mundo que não me pertencia e fui para as ruas.


Vaguei sem rumo, mesmo sabendo que devia ir para a Estação. Estava no centro da Capital, não era sempre que atendia alguém ali, as pessoas do Centro, sabiam de onde ela vinha, a reconheciam e corria o risco de ter que trepar com um dos amigos de seu pai.
Todas as principais Avenidas eram preenchidas por prédios mais altos que as nuvens e que brilhavam mais que diamantes. As ruas eram limpas e de metal, por meio da qual os carros flutuavam. O movimento era intenso. Havia muitas pessoas. Elas corriam de e para todos os lados. Com seus penteados e roupas exuberantes. Gostavam da luxuria. A grande maioria passava por mim sem dar a mínima atenção. Não sabiam que eu estava ali. Estavam perdidos em seu mundo. Em seus smarts. O Governador providenciou tudo. Ele criou o progresso. Ele moldou o mundo a sua vontade. E o fez assim em sete dias. A última maravilha a ser construída, terminada apenas no ultimo dia, foi o Prédio do Governo. Imponência não faz jus a sua grandeza, nem adjetivo nenhum a sua beleza e exuberância.  Ele era mais e maior que qualquer adjetivo inventado. Indescritível. Inimaginável. Irreal. Surreal. Real. Era a grande joia da coroa e por isso cercado, protegido e vigiado pelos olhos das máquinas e pelos inquietos desconfiavam de todos.
O fluxo de carros luxuosos aumentava a cada instante ao redor do Prédio do Governo. Homens e mulheres vestidos de fama, dinheiro e corrupção eram escoltados até a porta de entrada. Alguém havia fugido da prisão. Um rebelde, diziam. O Governador não via motivos para se preocupar, mas também não baixaria a guarda...
Entrei em meu carro. Conectei meu smart em seu painel de comando. Todas as coordenadas estavam ali. Não precisava fazer mais nada. A velocidade seria sempre constante. Sempre a mesma. Nunca erraria seu trajeto. Nenhum acidente jamais ocorreria. Tudo era perfeito... e melancólico.


Os prédios passavam sobre minha visão. Corriam... Corriam sem se mover... E eu deixava todos para trás... Deixava os grandes prédios de espelho... As pessoas jovens e velhas que transitavam... Os ricos e os mais ricos ainda. Todos corriam sem se mover. E eu deixava todos para trás... Objetos tornavam-se borrões sem vida... Destorciam-se... Torciam-se... Moldavam-se... Remodelavam-se sem se importar o que pensariam... No céu frio e acinzentado nuvens de ferro que derramavam enxofre sobre a Capital, que desafiadora, esgueirava-se e impunha-se sem temer a nada.
Deixei-me sentir cidade... Deixei-me viver a cidade... Contemplei a face do Governador em um grande telão. Soberano do universo. Remodelara o mundo a sua vontade... Soberano exercia teu poder e autoridade.  O carro parou. Gritavam para mim os anúncios que outrora corriam parados. O Grande Governador! Mestre do homem e senhor da humanidade! Sorria e acenava. E todos que estavam a sua volta desejavam glórias e vida eterna. O homem que enganou a morte, diziam. O homem que matou a morte, diziam. O homem que controla o tempo, diziam. Ponderei sobre o tempo. Inapreensível. Incompreensível. Tantas formas de medi-lo foram criadas pelos homens... Mas nenhuma regra parecia-me dar conta de sua totalidade... Tempo. Duração. Medir o tempo pela vida. Quanto tempo vivemos mesmo? De tempos remotos tantas foram às concepções adotadas pelos homens... Falhas? Desvios? Pensou naqueles que vivem abaixo da terra. Sabia deles... Sabia que abaixo de seus pés havia vida... Eram como insetos. Pobres coitados... Talvez fosse melhor permanecerem no subsolo mesmo... Cigarras passam sete anos enterradas... Quando conseguem vir à superfície e viver, sair de sua casca... Morrem em menos de um mês... Sete anos para um mês...


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TADUS: Capítulo 01


No Capítulo 01, o Mundo Inferior é apresentado sob o ponto de vista de um trabalhador, nele as poucas relações estabelecidas entre sujeitos humanos é mediada por meio da exploração das forças de trabalho. O ambiente do Mundo Inferior pode ser imaginado como o espaço interior de uma fábrica, de uma indústria. O trabalhador alienado não tem o domínio dos meios de produção, sua existência é necessária apenas para que produza em abundancia para a Superfície. Consome o mínimo necessário para continuar vivendo e assim poder continuar produzindo para a Superfície. Em Tadus, os humanos do Mundo Inferior nunca viram a luz do dia, tendo habitado apenas o interior da terra. Essa relação de invisibilidade perante os humanos da Superfície, remete a invisibilidade simbólica e material da classe operária, dos pobres na visão burguesa, capitalista.  
Não é permitido o descanso, o prazer aos humanos do Mundo Inferior, sintetizando a exploração humana, quem trabalha para produzir a abundancia para poucos, enquanto sobrevive com quase nada.

O conceito e execução da obra são de autoria dos acadêmicos Lucas Men Benatti, Odonias Souza de Santos Junior e Rafael Carvalho de Almeida.


Pólis vivia no submundo das cidades. Era filho dos Escondidos, aqueles que nunca deveriam submergir de suas deficiências as quais lhe lançaram. No mundo acima, a grande maioria não sabia de suas existências... Não imaginavam que abaixo de teus pés haviam seres humanos. Que pisavam sobre a carne viva de outros homens. Poucos eram os membros do Governo que também conheciam suas existências.
Eram a força oculta que sustentava todo o progresso. Todas as máquinas e tecnologias existiam por um objetivo e só existiam por uma força humana. Ali, entre a escuridão e o calor industrial a vida da superfície era criada, era moldada... Do câncer e da esquizofrenia dava-se a luz a perfeição.
Era no submundo que o passado dos homens se fazia presente na clandestinidade... Ali ainda se via e usavam papéis... Ali ainda haviam restos materiais de uma civilização que não mais existia... No atraso se construía o futuro. Ainda assim, o passado era proibido... A história do que se foi não deveria ser lembrada por ninguém... O Novo Mundo, a história dos homens dera início com a revolução dos governos... Não muito se sabe... Tudo o que se diz é que, do caos e do medo, o Governador criou a luz e a esperança no mundo...


As luzes vermelhas e o alarme de aviso gritavam sobre o corpo estendido de Pólis.  O tempo que lhe era permitido dormir já havia se esgotado. Devia retornar ao seu posto de trabalho. Olhou pelo vidro embaçado da sua cabine. Uma fila de operários aguardavam pelo seu momento de descanso do lado de fora. Humanos, não-humanos.
Rapidamente levantou-se. A idade não lhe era certa. Nem saberia se tinha uma vida ou se vivia. O cansaço consumia teu corpo. Mirou teu reflexo em uma placa de metal na parede. Sempre estivera assim. Todos sempre estiveram assim... Como saberiam se era cansaço ou condição humana da existência?
Pólis caminhava entre homens e mulheres sujos e fedidos. As luzes lhe queimavam os olhos. Tudo ali era desgraça... Mas não conseguia imaginar como poderia ser diferente... Às vezes pegava a devanear em algum breve momento de fraca esperança... Recordava-se do que um dia, um velho havia lhe dito enquanto engolia o vomito que lhe serviam...
- Uma vez eu encontrei um livro... – o velho diminuiu o tom de voz. Estavam sentados um ao lado do outro, em uma fileira interminável de criaturas que também se alimentavam – Eu sei ler! Sabe, eu não sou daqui... Não fazia parte da tecnologia bruta... Fazíamos coisas pequenas de onde eu era... E eles nos ensinaram a ler... Precisávamos ler para fazer o que nos pediam... Então um dia eu o encontrei... Estavam nas coisas de um outro cara na verdade e eu o roubei para mim... Não consegui ler tudo. Antes disso, eles me pegaram... Mas eu me lembro muito bem do que dizia...
Silêncio. Apenas o barulho dos comedores famintos. O velho engolia sua pasta. Era como se houvesse esquecido do que havia dito... Pólis desejava saber mais... Desejava saber o que estava escrito...
- O que o livro dizia? – sussurrou temendo ser ouvido pelos outros.
- Ah sim... Esse mundo que vivemos, esse lugar aqui... É passageiro... Acima de nós existe um novo mundo, um mundo perfeito... O livro me revelou isso... Vivemos no Mundo Sublunar, é essa merda aqui onde estamos! Esse é o nosso mundo! Mundo vazio, da violência, da corrupção, da transitoriedade... Mas acima de nós existe um outro mundo...
- Não acredito que exista algo além...
- Eu acredito! E ainda chegarei até ele... O Mundo Supralunar, o mundo cheio e perfeito... Conhecerei a quinta essência... E um céu de astros e estrelas fixas...


Ele não sabia bem ao certo. Na verdade suas lembranças se embasam na mente, as coisas se tornam foscas e confusas. Todo mundo segue em fila. Todos seguem em ordem. São reféns dos números que os identificam. São reféns de cabos e de artimanhas de longas datas. De tempos de onde não se viam os males. De um tempo que escorria em azul sobre o céu. Seu céu é metal e cinzas. É ferrugem e frio. Cabos de luz amarelas.  Somente...
Pólis engoliu o fel que regurgitava. Refluxo. Fluxo de lixo.
Todos os dias a mesma tarefa. Todo momento as mesmas sensações. O que realmente sentia? O que realmente lhe tocava a pele? Não sabia se gostava. Não sabia que odiava. Só sabia não saber.

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TADUS: uma narrativa sobre a condição humana


Tadus é uma narrativa sobre a condição humana, sobre a produção humana em seus complexos e acasos. O nome deriva de um instrumento de tortura, pois a dor é um dos aspectos da realidade. É justamente o real que é sintetizado e abstraído. O real da produção humana, encontrando-se nessa polissêmica trama a arte e a ciência como produtos (materiais e intelectuais) humanos.  A estrutura narrada se constitui de três distintos pontos que podem ser condensados na apresentação do Mundo Inferior, do Mundo da Superfície e de modo conclusivo, dos antecedentes dessa divisão universal fixa. Tomando como partida a divisão do mundo físico de Aristóteles e como pano de fundo uma narrativa que aponta para um possível futuro humano, Tadus expressa metaforicamente à divisão do trabalho, a relação burguesia e proletariado no mundo moderno e contemporâneo, trata-se de um manifesto crítico ao modo de produção humana e consequentemente de organização social. 

O conceito e execução da obra são de autoria dos acadêmicos Lucas Men Benatti, Odonias Souza de Santos Junior e Rafael Carvalho de Almeida.




Ontem veio à fama,
Ontem teve a glória,
Mas amanhã você chora!
Ontem tinha em tuas mãos os açoites,
Ontem escorria dos teus lábios as pragas...
Amanhã...
Um canto na cela?
Um sonhar sem vida?
Ontem mantivera prisioneiros
Ontem mantivera operários
E hoje não terá nem comida!
Nem poderes!
Nem tolos!
Teu império vai ruir
Teus exércitos acovardados fugirão...
Tua lábia não lhe valerá de nada!
Ontem governou o mundo...
Ontem absoluto e soberano era um deus
Amanhã?
Amanhã será um vagabundo a vagar...
Um pobre a pedir...
Um tolo a tocar...
Um deus a implorar...
Um forasteiro a fugir...
Um mendigo a medir...
Medirá tua vida...
Medirá teu destino...
E morrerá...
Infeliz morrerá...
Esquece teus vinhos...
Será um querer e desejar sem poder!
Apenas a apreciar...
Um canto a viver...
Um pão que possa comer...
No meio das ruas os espelhos...
No meio das ruas as luxurias...
E as pessoas a se admirar...
Tuas vitrines de brilho...
E teu triste sorriso de pena
E vai lamentar...
Vai chorar...
Desfalecer...
Dormir...

Morrer.


Carregava uma força que não poderia controlar. Vinha um destino que lhe assinalava a vitória. Era isso que diziam ver em seus olhos enquanto marchava pelo branco. Branco era a cor das cidades. Um, dois, três. Um, dois, três, quatro. Essa era a marcha que não poderiam parar, pensava. Essa era a marcha que não poderiam controlar a vitória. Sentia todos seus músculos em harmonia, em êxtase de emoção e força. Força e coragem. Coragem e gritos.
            Não podia lhe ocorrer que não seria assim. Não passava em sua mente que não tomaria de volta o que lhe retiraram. Era assim, era assim e sempre seria. Mas não desta vez! Ergueu teus braços e inflamou a bandeira. Sentia-se tocado pelo próprio Deus. Sentia a vitória em tuas mãos... O céu era cinza. Pólis já nascera sobre o amarelo que lhe encarcerava abaixo da terra. Branco e cinza eram como dádivas. Mas as cores da multidão era a mais bela arte.
            Percorriam o espaço em rápido caminhar. Sentiam a ansiedade e o sopro que antecede o confronto. Era palpável o medo. Era visível a vontade de mudança. A rua ainda vazia. Não havia nenhuma resposta aos seus atos. Todo concreto e vidro era silencioso. Vácuo. As luzes artificiais sempre acessas. Flashes dos olhos de Deus. Recordavam todo o passado. Corriam a mesma corrida do tempo com o presente.
            Observou seus companheiros. Sussurravam a melodia proibida. Tomavam da arte a força para teus atos de violência. Bebiam no seio das musas o leite para a vitalidade. Não seriam vencidos. Não desta vez.
            As luzes artificiais se apagaram. Toda rua foi tomada por completa escuridão. Eles sabiam que viriam. Eles já sabiam de sua presença na Capital. Onipresença. Onisciência. Onipotência. Os olhos do Governador se abriram para os rebeldes. Sentiram o peso da divindade sobre seus corpos. Permaneceram em marcha, não se intimidariam... Dos prédios, a fumaça da morte passou a ser liberada, mas já esperavam por aquilo, fecharam teus capacetes e ligaram os pares de lanterna acopladas a ele.
Pólis acionou a visão noturna de teus óculos, só assim, ainda que com dificuldades, conseguiria ver algo a sua frente. Sabia que não seria apenas aquilo. Negro. O mundo era negro.
Que coisas piores o esperavam? Em sua mente construía algumas possiblidades do que poderia vir, mas nunca teria certeza de quais cartas o Governador usaria em seu jogo.
Toda a terra estremeceu abaixo de seus pés. Engrenagens invisíveis resmungavam funcionar pela primeira vez. Tudo ali era artificial. Tudo ali fora construído, modificado, reinventado... Cada centímetro guardava um segredo do Governador. Cada máquina, cada átomo a vida de um homem.  A rua branca continuava a se movimentar, Pólis não ouvia mais o canto de teus companheiros... Todos tinham seus sentidos diminuídos... Não viam, não escutavam com precisão... A rua começou a se abrir... Estavam sendo engolidos, tragados pelo demônio... Eram como almas a serem sugadas para o inferno. Mas não temeriam... Já estiveram no inferno por muitos e muitos anos. Não retornariam para ele!
Não se retiraram! Continuaram a marchar... Mas não havia para onde correr... Não havia saída. O destino estava assinado desde o inicio. O destino estava predeterminado antes mesmo de estarem ali.

Pólis corria ofegante contra a rua que se partia ao meio. Estavam presos em um corredor da morte. Muros se levantavam entre os prédios... Não havia direção para fugir. Era apenas uma estrada para o fim.

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